29 de agosto de 2014

Sobre macacos, aranhas, vacas e afins

*Esse texto surgiu a partir do caso de racismo sofrido pelo goleiro do Santos Aranha no jogo de ontem contra o Grêmio.

Não importa o que os otimistas e iludidos falem, nós ainda vivemos em um mundo e um país essencialmente patriarcal, racista, homofóbico e misógino. Não são somente casos isolados, não é somente no quintal do vizinho. É aqui, é hoje, é dentro de casa e é com muita gente.

Nos momentos de fatos como o de ontem com o Aranha, todo mundo é bonzinho, fica indignado, posta no Facebook, mas isso é realmente sincero? Resolve alguma coisa?
Eu vejo que o problema está na falta de atitude e combate contra essas atitudes. Mas não por parte das “minorias” vitimizadas como negros, mulheres e gays. Esses têm tentado fazer a sua parte. Mas nada muda enquanto a “maioria” que não sofre com isso não se mobilizar.

Explico:
– Patriarcalismo: ideologia na qual o homem, em especial o pai, é a maior autoridade, restando aos outros serem subordinados a ele. Sério mesmo que em 2014 ainda temos que ouvir que o homem deve ser o responsável pelo sustento da família? Que ele é o chefe e a palavra final dentro de casa é dele? As mulheres já lutam há anos pelos direitos de estudar, trabalhar e ganhar seu dinheiro, mas depois disso tudo, chegar em casa e ver seu marido de cara feia porque você ganhou mais do que ele esse mês é de chorar. Que a responsabilidade de criar os filhos, trocar fralda, fazer comida é da mulher? Homens, cabe a vocês ajudar a mudar essa visão. A gente já tem feito a nossa parte enfrentando os leões lá fora, está na hora de vocês se orgulharem de que ajudam a cuidar da casa, a dar banho nos filhos, sentir orgulho de ter ao seu lado uma mulher batalhadora e inteligente que ganha tão bem quanto você e divide financeiramente com você a responsabilidade das contas e os prazeres do lazer. Homem de verdade não tem medo disso. Isso nos leva ao próximo tópico:

– Misoginia: ódio, desprezo ou repulsa ao gênero feminino e características a ele associadas. Nesse momento, você, homem, pensa “eu não me encaixo nisso, amo as amulheres”. Então, aí vai a explicação: “A misoginia é manifestada em várias formas diferentes, de piadas, pornografia e violência ao autodesprezo que as mulheres são ensinadas a sentir pelos seus corpos”, diz o sociólogo Allan  G. Johnson. Você faz piada machista? Você passa cantada nas mulheres na rua? Você diz a sua filha que ela tem que voltar a tal hora enquanto o filho faz o que quer? Então, meu amigo, você está nesse grupo. E algumas mulheres também, aliás! Ter esses mesmos pensamentos, se sentir inferior aos homens e se sentir impura por ser mulher também é errado! De novo: nós, mulheres, temos feito a nossa parte, mas resolve só isso? Não. Quando as mulheres falam que se sentem ameaçadas por qualquer homem que cruze com elas na rua porque pode ser um potencial agressor, os homens deveriam se sentir ofendidos! Porque você, homem correto e de caráter que jamais abusaria de uma mulher, também está no grupo dos que nos causam medo. Os corretos pagam pelos pecadores, não é? Então, se mexa! Não faça cantadas para as mulheres na rua – seja com palavras ou não, porque buzinadas, assovios e aquele nojento som de chupada são tão ruins ou piores do que palavras -, não julgue uma mulher porque ela está com roupa curta ou porque tem vontade própria e dá em cima de você ao invés de esperar a sua atitude, defenda suas amigas dos babacas que fazem essas coisas. Não porque elas não sabem se defender, mas porque você também acha um absurdo fazerem isso com qualquer pessoa. É fácil dizer que as mulheres não são respeitadas no mundo árabe pela obrigatoriedade do véu, burca hijab e chamar uma mulher brasileira de vadia porque saiu de minissaia. Cuida do teu quintal antes de criticar o do vizinho.

– Racismo: a abolição da escravatura foi em 1888! 126 anos depois e ainda precisamos discutir o preconceito de cor? Neste país com maioria negra, com essa mistura toda, ainda temos negros sendo chamados de macacos?!!! De novo entra a questão “é um absurdo, jamais faria isso, mas eu sou branco, eles precisam lutar pelos direitos deles”. Eu sou branca e, quando acontece um crime como o de ontem da menina que xingou o Aranha de macaco, eu me sinto não só revoltada, como constrangida. Porquê da mesma forma que o homem bom paga pelo mau que abusa das mulheres, eu, como branca, pago pelos outros da mesma cor que ofendem os negros. O estigma de branco preconceito também recai sobre mim. Então, os brancos também precisam se unir aos negros contra o preconceito, contra o racismo. Não admita quando um amigo seu cometer um ato de racismo, critique, ensine, mude esse pensamento. Não aceite a crença vergonhosa de que negro é bandido ou inferior. Aja!

– Homofobia: dos tópicos apresentados aqui essa é a luta mais recente e uma das mais difíceis. Isso porque ela entra também nos conceitos de patriarcalismo e machismo. “Não tenho nada contra os gays, mas não queria que meu filho(a) fosse”, “Não tenho nada contra os gays, mas eles não precisam se beijar em público”, “Não tenho nada contra os gays, mas agora virou moda toda novela ter um casal assim né”. É tão difícil mesmo ver a incoerência nesses discursos? Quem respeita e aceita não impõe condições. “Você pode ser gay, mas vai ser assim lá no seu quarto onde eu não possa ver, nem saber” é o que tudo isso quer dizer. Mas já tem a maior Parada Gay do mundo em São Paulo, já têm os casais gays e lésbicos nas novelas, o que mais se pode fazer? Primeiro, parar de falar essas frases ridículas acima citadas. Se você aceita, aceita de qualquer jeito. Falta a movimentação dos héteros. Faltam os casais héteros dizerem, e praticarem, “se a gente pode se beijar e andar de mãos dadas em público, eles também podem”. Falta assumir que casal é casal e ponto. Não importa se é hétero, homo, trans ou qualquer outra denominação. Falta ensinar ao seu filho que isso é normal, faz parte da vida e que ele tem liberdade para ser o que ele quiser ser, sem julgamento. Tudo isso gira em torno de uma questão: todos fazemos parte da sociedade, logo, todos esses problemas – que nos atingem diretamente ou não – são nossa responsabilidade. O homofóbico, o misógino e o racista não são extraterrestres. Eles são pessoas, estão a sua volta e podem ser seus melhores amigos e você nem sabe. Olhe pra dentro de você e analise seus pensamentos, suas crenças, suas palavras. Todos temos nossos monstros internos, mas podemos curá-los. Tudo começa dentro de nós e dentro de casa. Quem sabe assim, não demore tanto tempo para que casos de racismo como de ontem sejam só histórias de gerações passadas.