20 de maio de 2016

A ciência de comer um caranguejo

Pensar em praia nesse dia frio chuvoso não é fácil. Por isso, a dica desse mês é de uma comida que você pode experimentar com aquela vista linda ali de frente pro mar, mas dentro de um restaurante quentinho e aconchegante. A estrela de hoje é o caranguejo!

Minha primeira experiência com esse lindo e vermelho bichinho foi no ano passado em uma viagem para Aracaju, no Sergipe. E confesso: não foi fácil! Não por causa da comida, que é deliciosa, mas pela minha total incapacidade de abrir o caranguejo e conseguir aproveitar sua carne. Não fossem meus amigos sergipanos, eu teria morrido de fome naquela noite! Sendo assim, venho aqui dar algumas dicas para que vocês não sofram na hora de aproveitar essa carne tão saborosa.

Primeira coisa: caranguejo não é igual a siri! Mas é quase. O siri faz parte da família do caranguejo, mas tem a diferença de ter as patas traseiras mais achatadas e amplas, não pontiagudas como a dos caranguejos. Isso faz com que o siri seja o único da família capaz de nadar. O caranguejo também costuma ser bem maior, chegando a 50 centímetros, enquanto o siri não costuma passar de 20. As duas carnes são muito boas, não dispenso uma boa casquinha de siri, mas os sabores são bem diferentes.

Segunda dica e muito importante: se você ainda não tem a prática de abrir o caranguejo, não vá para o restaurante com fome. Ou então, peça alguma coisa mais fácil como acompanhamento. Caranguejo foi feito para comer com calma, compartilhando com os amigos, acompanhando uma bebida. Com o tempo, você pega o jeito, mas no começo não vai conseguir tirar mais do que algumas lascas de carne com pedaços de casca junto e vai ficar com o estômago roncando e essa cara de quem não faz ideia do que está fazendo.

Aí chega a parte da ciência de abrir o bichinho, que eu coloco aqui em três passos para ajudar os caranguejeiros de primeira viagem:

Passo 1: Comece a comer o caranguejo pelas patas menores, são mais fáceis de quebrar. Quebre as patinhas nas articulações. Quando você puxar vai sair um pouco de carne de um lado e do outro ainda pode ter ficado carne dentro, então pegue o lado oposto, quebre a ponta com o dente e chupe para sair o restante da carne. Essa é a técnica clássica dos especialistas. Parece fácil, né? Se mesmo assim não sair, abra a patinha pela lateral.

Passo 2: As partes mais gostosas, porque têm mais carne, são as patas grandes. Para quebrá-las use a tábua e o martelo de madeira oferecidos pelo restaurante. Aqui você tem que colocar a força na medida certa para não espatifar toda a carne e ficar a ver navios, como eu fiz. Retire a garra móvel do caranguejo e coma a carne que vier, depois segure na garra fixa, coloque-a sobre a tábua e dê umas batidas nela até trincar, depois quebre o resto com a mão.

Passo 3: Depois de comer as patinhas e as patonas, vem o corpo! Separe em duas partes: o casco e o abdome. Retire a parte mole que fica em cima do abdome e pode mordê-lo, tem carne lá também.

Pode parecer meio estranho lendo assim, mas quando você estiver lá sentindo o cheiro maravilhoso, vai entender. O caranguejo é muito apreciado no Nordeste – e mais barato por lá -, mas você também encontra em outras praias do litoral paulista e carioca. O mais importante é não se preocupar em se sujar e aproveitar o momento! Dê risada também da sua incapacidade, peça ajuda se precisar, mas não deixe de experimentar essa delícia do litoral!





26 de março de 2016

Diga-me uma praia que eu te digo qual peixe comer

Semana Santa, comida caiçara... não foi muito difícil escolher o tema da coluna dessa semana: peixe! Mas, vamos fugir da tradicional isca de peixe e nos distanciar um pouco da areia para chegar aos restaurantes caiçaras e conhecer um pouco mais da cultura pela culinária do nosso litoral. Afinal, o verão acabou, mas ainda tem muita comida boa para experimentar pelas praias.

Como estou em Santos, preciso começar puxando a sardinha (ai, esses trocadilhos!) pro meu lado e falando da famosa Meca Santista. Desde 2004, este foi o eleito para ser o prato oficial da cidade. Uma pesquisa feita entre o moradores e turistas escolheu os três ingredientes preferidos da região: meca, banana e palmito pupunha. A partir daí, alunos e professores do curso de gastronomia da Universidade Católica de Santos criaram o prato que consiste em filés de meca grelhados, acompanhados de farofa de banana e risoto de pupunha. Apesar de ser suspeita, vou afirmar que é muito bom! Vários restaurantes da cidade oferecem e é uma excelente pedida para quem quer apreciar um pedaço da culinária regional.
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Subindo um pouco pelo litoral chegamos ao Rio de janeiro e temos um prato que pode não parecer muito de litoral ou de uma cidade tão quente como a carioca: a Sopa Leão Veloso. Qualquer guia gastronômico que se preze inclui esse como um dos pratos mais típicos da cidade. A sopa foi criada pelo diplomata brasileiro Paulo Leão Veloso que representou o Brasil na França e conheceu uma sopa típica de lá chamada Bouillabaisse, feita pelos pescadores do Porto de Marselha. De volta ao Brasil, Leão Veloso fez algumas adaptações utilizando cabeça de cherne e de camarões, além de frutos do mar, tomates, coentro e alho-poró. Alguns restaurantes na cidade servem o prato com variações usando badejo ou garoupa. É uma boa opção agora que começou o outono e em breve chega o frio carioca de 25 graus (risos!).

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Continuamos nosso caminho pelas praias nacionais chegando ao Espírito Santo e de lá não há outra escolha a não ser falar sobre a Moqueca Capixaba. O prato que gera polêmica com os vizinhos baianos e que levou à frase característica: “moqueca, só capixaba, o resto é peixada”! Sem desmerecer nenhuma das regiões, os pratos são diferentes devido à ausência de azeite de dendê e leite de coco na versão capixaba e que não podem faltar na baiana. O dourado e o badejo normalmente são os peixes mais comuns utilizados no prato, mas o cação também tem sido uma opção por ser mais em conta. O importante e que traz todo um toque especial à moqueca capixaba é o uso do peixe bem fresco, o urucum para dar a coloração avermelhada e o cozimento feito em panela de barro. Na dúvida de qual versão é melhor, experimente as duas e chegue à sua conclusão.

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Alcançando um dos pontos mais altos do litoral chegamos ao nordeste e à famosa Peixada Cearense com Pirão. Com uma combinação de influência portuguesa e indígena, a receita autêntica leva peixe recém-pescado, pimenta, colorau, legumes e ovos cozidos. O pirão feito com base no caldo de peixe engrossado com farinha de mandioca completa essa maravilha nordestina imperdível.

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Depois desse passeio pelo Brasil, você já tem várias opções para aproveitar essa semana santa e para anotar nas suas dicas de viagens. Não é porque o verão acabou que você precisa desistir de aproveitar o litoral. Boa praia e Boa Páscoa!

27 de fevereiro de 2016

Camarão: o queridinho das areias

Sei que estamos numa época de valorização da comida mais saudável e natural, com menos gordura e mais frescor. Ok, eu apoio esse movimento e também busco isso no meu dia a dia. Mas, não dá pra negar: aquele cheiro de camarão recém-frito vindo do quiosque é irresistível! Então, apenas por um dia, um sábado na praia, vamos abrir mão do natural e falar desse queridinho das areias, o camarão.

O que mais ouço dos meus amigos paulistanos quando vêm me visitar é: “estou na praia, quero comer peixe/ quero comer camarão”. Até parece que no litoral só tem isso, mas, ok, entendo a preferência. A principal vantagem de comer peixe ou frutos do mar em cidades de praia é que, em geral, eles são mais frescos do que os de São Paulo onde você só encontra congelados no mercado.

Sendo assim, já que essa é a prioridade alimentar na visita ao litoral, vai a primeira dica: evite comer camarão vendido diretamente na areia, em carrinhos ou isopores. É mais difícil garantir a procedência e a higiene dele, principalmente por ficar exposto ao calor o dia inteiro. Já que ninguém quer passar o resto das férias no banheiro do hotel ou, pior, tomando soro no pronto-socorro, opte por pedir essa delícia em quiosques ou restaurantes que tenham freezer para armazenar de forma correta. Caso seja muuuuito difícil resistir quando aquele cheirinho te atrair na areia, dê preferência por consumir de manhã, para garantir que o produto esteja mais fresco e tenha passado menos tempo fora do gelo.

Aí, já em um lugar seguro e confiável, surge a dúvida: camarão à paulista ou à milanesa? Minha resposta ideal seria “os dois”, mas eu estou sempre com fome como a gente sabe que a grana não está sobrando pra todo mundo, vou tentar ajudar você a sair dessa indecisão.

O camarão à paulista é aquele frito com casca e tudo – em alguns lugares até com cabeça, mas vai de gosto -, acompanhado de um bom tempero de alho, salsinha e suco de limão. O ideal é que ele seja feito com camarão rosa ou algum tipo grande, senão depois de frito, você vai comer só casca. Eu gosto bastante desse tipo porque acho mais fresco e leve pra comer num quiosque à beira-mar. No Rio de Janeiro, ele também costumava ser vendido em espetinhos, mas essa venda por ambulantes havia sido proibida na cidade justamente por causa do risco à saúde. Não sei como está essa regulamentação hoje.

Já o camarão à milanesa ou empanado pode ser feito com camarões menores e sem a casca. Esse dá mais trabalho porque precisa ser passado no ovo e na farinha antes de fritar, então é normal custar um pouco mais caro. Ele também costuma vir acompanhado de limão, molho tártaro ou molho rosé. Por ter essa camada de ovo e farinha, ele é mais pesado para comer do que o paulista, mas cai muito bem como um aperitivo pré-almoço ou se for a única coisa a comer naquela refeição.

No fim das contas, camarão é maravilhoso só por ser camarão, então fique à vontade e faça sua escolha. Não preciso nem dizer que ele combina muito bem com uma cervejinha bem gelada, mas como essa não é a minha praia (ignorem o trocadilho), deixo pra coluna do meu colega Otavio Corsini. Boa praia!


2 de fevereiro de 2016

Vem rápido antes que derreta!

Imagina comigo: fim de semana, solzão torrando 35 graus lá fora e você de folga pingando no sofá em São Paulo. Migo, ta errado! Pega o carro, a moto, o ônibus, a mobilete e desce pra praia! Aqui tem sol, mar, areia, vento, pessoas com pouca roupae o melhor: muita comida boa! Esse é o papo dessa nova coluna pra você conhecer tudo o que envolve aquela isca de peixe ou camarão à paulista que já comeu à beira-mar.

E como verão e calor combinam com coisa gelada, o papo de hoje é sobre o apaixonante sorvete. Só que por mais incrível que pareça, essa delícia à base de leite, frutas e doces é muito mais consumida nos países mais frios do mundo. Enquanto aqui no Brasil a média de consumo anual é de 3 kg por pessoa, na Nova Zelândia esse número sobe para 12,8 kg por pessoa!! Logo na sequência estão Austrália, Estados Unidos e Finlândia (dados de 2014 da Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvete). E você botando a culpa dessas gordurinhas no excesso de sorvete, hein?!

O sorvete (ou algo próximo do que consumimos hoje) surgiu há mais de 3000 anos quando os chineses misturaram neve com frutas. Depois passou pelos árabes, gregos, italianos e franceses, sempre da alta sociedade, até se transformar no que tomamos hoje. Naquela época não existiam os tiozinhos empurrando carrinhos da Kibon pela areia e gritando “Sorvete, sorvete”. Era só pra gente fina e elegante. No Brasil, ele chegou em 1834, mas o curioso é que como não existia freezer, ele não durava muito tempo, então os cafés e confeitarias faziam anúncios informando o dia e hora que ele seria produzido para as pessoas irem comprar antes que tudo derretesse. O primeiro sorvete industrial veio somente em 1942, o Eski-bon.

Hoje em dia, muitas marcas investem em novos sabores de frutas típicas nacionais como mangaba, pitanga e umbu, mas a preferência ainda tem sido dos queridinhos chocolate e baunilha, apesar de serem menos refrescantes.

Então, da próxima vez que estiver lá sentado debaixo do guarda-sol se refrescando com seu picolé ou na sorveteria vendo a atendente misturar os sabores numa pedra fria, aproveite cada gotinha, porque deu muito trabalho até ele chegar assim geladinho e saboroso nas suas mãos.


8 de março de 2015

Às Marias desse Brasil

Maria do Céu é portuguesa. Nasceu em uma pequena aldeia próxima à Lisboa em 1947. Seus pais não eram casados, mas viviam juntos. Os dois, uma filha mais velha e a pequena Maria recém-nascida. Mas, como bem sabemos, nem sempre isso quer dizer que o pai se mantinha fiel a essa esposa. Em uma noite, o pai de outra moça que também havia engravidado, levou o pai de Maria debaixo de revólver para casar com sua filha e foi aí que a dificuldade ficou pior. Se hoje em dia a vida das mulheres já não é fácil pelo preconceito, imagine naquela época em um lugar com estruturas extremamente precárias e pouca educação.

A mãe de Maria, Nazaré, passou a ser menosprezada, ofendida e apontada na rua por ser mãe solteira, expulsa de casa pelos pais. Os vendedores de alimentos não vendiam seus produtos para ela, o que fez com que Maria muitas vezes ficasse sem leite quando bebê. Dependiam de outras mulheres para comprar o leite e levar para casa. E, enquanto isso, o pai de Maria continuava vivendo na mesma aldeia com sua esposa e filhos, mas sem dar assistência à família anterior. “Quando criança, eu lembro de questionar minha mãe: se ele é meu pai, por que ele vai buscar as filhas na escola com guarda-chuva e eu volto pra casa debaixo de chuva?”

Desde criança, Maria do Céu era questionadora e respondona. Sua mãe a chamava de “russa de mau pelo”, como se dizia na época de crianças mal criadas, e apanhou muito por isso. “Eu achava que só minha mãe era assim, que só eu era apontada como a filha da fulana, que as outras mulheres que eram certas. Carreguei muita culpa por isso. Só muitos anos depois fui descobrir que várias pessoas da aldeia viviam a mesma situação que eu.”

Maria ainda teve mais três irmãos por parte de mãe em Portugal. Conforme a infância passava, a situação não ficou melhor. Maria lembra dos momentos em que passou fome e, inclusive, que chegaram a morar em um palheiro, um galpão de pedra onde se guarda o feno para os animais.

Com a sorte de quem ainda tem boas almas por perto, uma brasileira que havia passado alguns meses na aldeia convidou Nazaré para vir para o Brasil com as duas filhas, mas ela não quis. Ao invés disso, mandou somente as filhas para o país, pois não queria que elas tivessem o mesmo destino, fossem perseguidas da mesma forma. “Eu acho que comigo não ia se repetir porque eu era muito brigona. Uma vez um velho tentou passar a mão em mim e eu fui pra cima dele. Tinha muito nojo”, conta Maria.

Primeiro veio a filha mais velha e depois Maria, aos 11 anos. Foi levada à Lisboa e colocada em um navio para vir para Santos. “Eu achava que vinha pra cá pra estudar, ser culta, esperta. Porque lá na escola, em um ano eu fiz dois. Eu era muito rápida. Mal sabia eu o que ia encontrar aqui.” E realmente, não foi bem assim que aconteceu. Já durante a viagem de navio, a mulher que era responsável por cuidar de Maria no caminho a maltratava. Não a deixava descer quando o navio parava nos portos, a deixava sozinha (Vale lembrar que os navios daquela época em nada se pareciam com os de hoje, né?). E ainda levou anos trabalhando até pagar a passagem para os donos da casa onde morava. “A minha irmã foi para uma casa boa, uma mãe boa, mas eu não dei a mesma sorte.”

No documento para vir ao Brasil estava que Maria viria para trabalhar, não para morar como filha de uma família. E ouviu isso por muitos anos de Laurinda e José, os donos da casa. “Eu ouvia ‘se você não fizer o serviço direito, a gente te põe numa caixa de bacalhau e manda de volta pra Portugal’. E eu queria correr, brincar, fugia pra casa da vizinha pra brincar com as meninas de lá.”

E, além disso tudo, a saudade já apertava o coração a ponto de afetar a saúde. Após chamarem um médico por causa de uma forte dor de cabeça que Maria do Céu tinha todas as tardes, veio o diagnóstico: ‘o que ela tem é saudade’, disse o médico. Com lágrimas dos olhos, Maria conta que lembrava do choro sofrido da mãe enquanto ela ia embora. “Ela fez isso pra gente ter uma vida melhor. Eu não faria isso com meus, não conseguiria. Eu sentia muita falta dela, mas também teve uma época em que eu tinha raiva por ela ter feito isso comigo. Eu pensava na mãe ideal pra mim, via outras mulheres da família aqui no Brasil e queria que uma delas fosse minha mãe, fosse boazinha, me desse carinho”, conta.

Um tempo depois, Maria percebeu que seu sonho de estudar não seria realizado. Apesar de ter pedido para enviarem seu diploma da escola de Portugal, Laurinda nunca a deixou estudar no Brasil. “Você veio aqui para trabalhar, não pra estudar, ela dizia”. Sua rotina era cuidar da casa, dos filhos da família, costurar para todos, sem nenhum momento de lazer. Não podia sair, ter amigas. “Minhas amigas eram minha irmã e a família, as que se tornaram minhas cunhadas depois. E eu não pensava em sair dali porque achava que tinha que ser grata a ela. Era tão burrinha que não percebia que estava sendo explorada.” Na adolescência, enquanto todas saiam para passear, ir aos bailes, Maria ficava em casa trabalhando.

Os anos passaram, Maria do Céu casou (com um sobrinho de Laurinda) e saiu de casa. Mas, a vida não ficou mais fácil por causa disso. “Meu marido era muito ciumento, não queria que eu saísse de casa, nem o pão podia comprar. Queria que eu fingisse que não conhecesse as pessoas quando cruzava com elas na rua. Uma vez quis fazer uma surpresa e fiz luzes no cabelo. Quando ele viu, foi um problemão. E eu, boba, abaixava a cabeça e obedecia.” Somente anos mais tarde, com o amparo dos filhos, que Maria passou a se posicionar e exigir respeito. “Depois que eu entendi que eu sempre estive obedecendo os outros, primeiro a vó Laurinda (forma carinhosa que os filhos de Laurinda a tratavam) e depois meu marido, e nunca fiz o que quis, eu mudei. Antes, eu pedia permissão pra fazer as coisas. Depois, eu só falo ‘eu vou, se você não quiser ir, pode ficar em casa’.”

A doença

Mas, a missão de Maria com Laurinda ainda não havia acabado. A convivência sempre se manteve mesmo após a saída de Maria de casa, e, anos mais tarde, a situação se inverteu. Maria do Céu, que sempre foi maltratada e explorada por Laurinda desde criança, teve o altruísmo e o amor de cuidar dela quando se manifestou o Mal de Alzheimer. O que para alguns poderia ser um momento de vingança, revide, para Maria foi uma oportunidade de dar amor ao próximo. Foram mais de 10 anos cuidando de Laurinda durante sua doença. Cuidados que, com o agravamento do problema, envolviam dar banho, trocar fralda, dar comida na boca, levar aos médicos, entre outras coisas. Períodos em que foi necessário desalojar um filho de seu quarto para acomodá-la. “Meu filho dormia num colchão na sala para dar a cama pra ela. Eu cortava pedacinhos de pão bem pequenos, no tamanho que ela conseguia engolir e passava manteiga em cada um deles pra ela comer, depois era só bolachinha maisena no leite.”

Nesse momento, seu relacionamento com o marido também se fortaleceu, pois ele foi de grande ajuda e apoio nos momentos difíceis. “Ele foi como um filho que cuidou dela. Nessa época eu gostava muito dela. Eu tinha visto aquela mulher tão altiva, independente, autoritária, como ela estava assim? E você veja o que é a vida: tudo o que ela me judiou e veio cair na minha casa. E eu tratei dela como se fosse a minha mãe. Porque pra minha mãe eu não fiz nada, ela estava muito longe.”

Laurinda faleceu em 2001 e para Maria e a família foi uma perda muito grande. “Por mais que eu me sentisse enclausurada porque via todo mundo saindo e vivendo sua vida e eu não podia, a morte dela foi terrível. Eu estava me sentindo tão abandonada, tão sozinha porque tinha perdido ela. Ela esteve internada um mês e eu não conseguia tirar os lençóis e a almofada onde ela sentava na minha casa. Eu estava na esperança de que ela voltasse.”

A volta pra casa

Depois de tantos anos de desafios, dificuldades e muita luta, uma grande alegria de Maria foi quando, aos 60 anos, voltou a sua aldeia em Portugal e reencontrou sua mãe, seus irmãos e conheceu até os irmãos por parte de pai. “Foi lindo! Quando eu cheguei, falei: viu, mãe, demorou 48 anos pra eu vir ver você, mas eu vim!”

Hoje, aos 67 anos, Maria do Céu é uma mulher linda, uma grande mãe de três filhos incríveis, ativa, amiga, muito amada e, principalmente, muito feliz.

Essa é a história da Maria do Céu, mas poderia ser da Joana, da Natália, da Adriana, da Fernanda ou de tantas outras. Histórias de mulheres de fibra, que, mesmo com todas as dificuldades impostas pela vida, nunca desistem, mesmo com medo, nunca recuam, mesmo tristes, nunca desabam. E o motivo e a força disso tudo, eu descobri no fim da nossa conversa.

– “Maria, revendo toda a sua vida, pensando em tudo o que você fez, se tivesse uma palavra pra resumir tudo, qual seria?”
– “Amor. Fiz tudo por amor aos meus filhos e à minha família.”


É, Maria, você não é do Céu à toa. Em nome de todas as mulheres que, ainda hoje, passam por preconceitos, dificuldades e desafios, muito obrigada!

27 de fevereiro de 2015

Ansiedade: Você não está sozinho

De repente alguma coisa acontece – seja uma ação ou um pensamento – e o gatilho é liberado na mente. A respiração começa a falhar e fica ofegante, o coração acelera que parece que vai ter um infarto, o corpo treme e sua, uma sensação de calor e frio ao mesmo tempo e na mente só pensamentos ruins de que nada vai dar certo, de que você vai morrer, e de que não é capaz de aguentar isso. Bem-vindo, você está tendo uma crise de ansiedade.

Digo bem-vindo, por você não está sozinho. Por mais que a sensação seja de que você está sozinho no mundo e só você passa por isso, acredite, boa parte dos seus amigos e familiares têm ou vai ter uma crise dessas durante a vida.

A ansiedade e a depressão são consideradas o mal do século XXI. Segundo dados do World Health Mental Survey, ligado à Organização Mundial da Saúde, 20% das pessoas que vivem em São Paulo convivem com ou tiveram algum transtorno ansioso nos últimos 12 meses (números de 2012). Analisando cidades de 24 países, São Paulo teve o índice mais elevado.

Não vou entrar aqui na razão desse aumento nos últimos anos, até porque cada um tem uma opinião diferente para isso, mas sim dividir a minha história e tentar ajudar quem passa por isso ou está próximo de alguém e não sabe o que fazer.

Vários motivos podem ser os gatilhos para a primeira crise: morte traumática na família, problemas profissionais, brigas graves, términos de relacionamentos e por aí vai. Depois dessa primeira crise, tudo o que remeter a essa lembrança e sensação pode ocasionar novas crises. Há cerca de dois anos eu venho trabalhando esse problema. E não é fácil. É um trabalho de um dia de cada vez, de recaídas e recuperações e dedicação consigo mesmo.

Algumas coisas eu posso dizer que não ajudam: se revoltar porque aquilo está acontecendo, ter pressa em ficar bem, culpar a si mesmo ou aos outros e, principalmente, se esconder do mundo e esperar que isso acabe por milagre. Essa última questão, além de não resolver, pode levar a outros problemas como a Síndrome do Pânico e a Depressão.

No começo eu não percebia que tinha essas crises. Simplesmente começava a chorar copiosamente, com um alto nível de estresse dizendo que não estava aguentando mais a pressão. Mas eu acreditava que era só um período difícil, um momento de fraqueza e deixava de lado. Isso me fez chegar a um começo de Síndrome do Pânico, levando à procura por uma psicóloga e depois ao antidepressivo. Mas eu só fui atrás dessa ajuda quando o nível de stress já estava me levando às sensações físicas que citei no começo do texto e ao bloqueio de relações pessoais e dificuldade no trabalho. No entanto, como sempre me incomodou muito me sentir mal, no mesmo dia procurei a terapia e consegui reduzir a entrada no pânico. O que não significa que o excesso de ansiedade passou. Eu tinha medo de ficar sozinha em casa (na época dividia apartamento com uma amiga em São Paulo), então passei a ir e voltar para a casa dos meus pais em Santos todos os dias, fiquei confusa com o que sentia pelo meu namorado da época, me afastando um pouco e conversando com ele só quando sentia que estava mais equilibrada, não queria sair de casa, parei de ter vontade de me cuidar como ir pra academia, cuidar do cabelo, da pele e das unhas, e cada momento de possível dificuldade me apavorava.

Ao longo desse tempo, fui aprendendo a me entender, entender o que causava isso e como lidar. Hoje, ainda tenho algumas crises em momentos específicos, mas elas duram menos e sei melhor como resolver. Voltei a me cuidar, meu namoro voltou aos eixos (só não deu certo depois por outros motivos. Rs) e voltei a morar na minha casa (também mudei por outras questões). Não me deixo bloquear e ficar em casa esperando que isso passe, enfrento e faço o que preciso ainda que a vontade seja me fechar no quarto e chorar. No entanto, não é de uma hora pra outra que isso vai passar. Mas a forma como você enxerga o problema, muda. Hoje, consigo enxergar melhor o que fiz de errado antes, durante e depois da crise e tento aprender e não repetir aquele comportamento. Mas os gatilhos que geram as crises vão mudando e o seu comportamento frente a eles também precisam. Assim é o aprendizado e o caminho da cura.

Estou longe de ser médica ou especialista no assunto, mas pela minha experiência posso dizer que algumas coisas sempre ajudam e tranquilizam:

Para o ansioso: Não se culpe quando as crises acontecerem. Lembre-se que isso é uma resposta do seu corpo a um comportamento mental. Você não agiu assim porque queria. Mas quando estiver mais calmo, analise o que causou o momento, entenda como isso abala você e busque uma solução.
Para as pessoas próximas: Não culpe, critique ou brigue com quem está em crise. Não diga que é frescura, fingimento ou fraqueza. Cada um sabe o que está sentindo, não menospreze.


Para o ansioso: Se tem uma coisa que é essencial é RESPIRE. Lenta e profundamente, várias vezes. Quando estamos ansiosos e nervosos, nossa respiração fica mais curta e rápida e isso leva pouco oxigênio ao cérebro que entende que você está em um momento crítico e o corpo se prepara para a tensão. Respirar calmamente manda a mensagem de que está tudo bem e que o corpo pode se manter tranquilizado, acelerando o processo de equilíbrio.
Para as pessoas próximas: No meu caso, a pior coisa é quando alguém me manda ficar calma. Porque eu sei que preciso ficar calma, mas naquele momento não está sendo possível. Segure nas mãos da pessoa para que ela sinta que não está sozinha, respire devagar junto com ela, olhe nos olhos. Tente conversar e dizer que vai ficar tudo bem, que não há problema ficar daquele jeito e que logo passa.


Para o ansioso: Não se renda ao momento do pânico ou do medo. Quando começar a sentir que está entrando numa crise, se mexa. Mude de lugar, procure outra coisa para ocupar a cabeça (no meu caso, lavar a louça ou tomar banho ajuda), beba água, saia para uma caminhada. Só não se entregue ao bloqueio de ficar em casa sozinho esperando passar porque você começa a se sentir mal, aí você fica nervoso porque está se sentindo mal e começa a ficar pior e tudo vira uma bola de neve. Aprenda a viver o presente. Pensar no que pode dar errado em alguma coisa que ainda nem aconteceu, além de não ajudar, não vai resolver o problema.
Para as pessoas próximas: Ajude o outro a mudar o foco, comece uma conversa sobre outro assunto tranquilo, faça-o dar risada, sugira um passeio, vão pra cozinha fazer um bolo. Qualquer coisa que corte o comportamento negativo.


Para o ansioso: Peça ajuda. Não é sinal de fraqueza ou desespero. Faz bem conversar com outra pessoa, dividir seus medos. Muitas vezes, botar pra fora o que está passando pela sua cabeça faz com que você racionalize melhor os problemas e encontre a solução mais fácil. Quem está de fora também pode ter uma visão diferenciada do que acontece e te ajudar. Fazer terapia é bem válido, em especial para as pessoas que têm dificuldade em se abrir. Falar com um psicólogo, evita que você receba julgamentos de amigos ou parentes e também que você acabe descontando suas frustrações em cima deles. (Eu já fiz terapia, parei por motivos financeiros e estou me programando para voltar a fazer)
Para as pessoas próximas:  Quando disponível, dê colo para quem pede ajuda, seja compreensivo. Se não souber o que falar, somente um “Vai ficar tudo bem” já ajuda. Não julgue ou diga que é bobagem. Seja um ombro amigo.


Para o ansioso: Equilibre a mente. Várias coisas podem ser feitas para isso e cada um deve encontrar em que se encaixa, mas eu posso garantir que duas coisas funcionam para todos: meditação e exercício físico. “Ah, mas eu sou ansioso demais pra ficar sentado em silencio tentando esvaziar a mente.” Blá! Eu também pensava assim e é uma grande bobagem. Pesquise sobre meditação e você vai perceber que existem centenas de técnicas de meditação, inclusive, meditação em movimento! É uma técnica que consiste em você mexer o corpo para tranquilizar a mente (o google te ajuda. Sugiro pesquisar sobre Osho). Seja qual for a técnica certa pra você, eu garanto que ajuda. Você não precisar esvaziar a mente, isso só acontece com alguns abençoados de total equilíbrio e depois de muito tempo de prática. Simplesmente não se renda aos diálogos mentais. Toda vez que começar a pensar no que tem pra fazer no jantar ou em quanto trabalho você tem, traga o foco de novo para sua respiração ou para uma música. Com a prática isso fica bem mais fácil. E atividade física. Qualquer uma! Movimente-se. Uma caminhada no parque, no quarteirão, na praia, na garagem do prédio, corra se gostar, vá pra academia, dance. Ao se movimentar, você gera novos hormônios de felicidade e satisfação, movimenta sua energia interna, vê outras pessoas, e tudo isso faz com que a mente se acalme. De novo, experiência própria, funciona!
Para as pessoas próximas: Novamente, não menospreze. Não diga que meditação é coisa de hippie, bobagem e não serve pra nada. Existem inúmeras pesquisas científicas que já comprovaram os benefícios da meditação para o cérebro, estude. Encoraje a pessoa a fazer isso, a se cuidar.


Para os ansiosos: Esse tópico é um pouco polêmico, então vou esclarecer desde o início, isso só vale se você acredita nisso e se sentir bem com o assunto. Me ajudou muito ter uma fé. Sou umbandista, mas qualquer fé é válida se te faz bem. Ajuda no momento de não se sentir sozinho e buscar uma força. Reze e peça ao que acredita.
Para as pessoas próximas: Incentive, se a pessoa acreditar, até sugira se achar que pode fazer bem, mas não pressione. Não insista que só o seu pastor ou pai de santo vai resolver o problema, que só Jesus salva e outros exageros. Cada coisa a seu tempo


Para os ansiosos: Não desista. Seja porque acha que os resultados estão demorando ou porque acha que já está bem. Eu já caí nesse erro e me arrependi quando percebi. As melhoras vão surgindo, mas é um processo. Cada novo problema, é uma nova forma de trabalhar seu interior. Provavelmente você fará tudo isso (meditação, exercícios físicos, respiração, diálogo) pro resto da vida. E isso não é um problema. Se te faz bem, continue.
Para as pessoas próximas: Incentive que a pessoa continue a fazer o que está ajudando. Relembre o quanto ela melhorou, destaque as diferenças de comportamento, porque muitas vezes nós não somos capazes de enxergar o quanto evoluímos, somente o que ainda não alcançamos. Seja uma alavanca, não uma âncora.


Para todos: Tudo passa quando você está disposto e esforçado a resolver. Não é porque você tem essas crises agora, que vai tê-las para o resto da vida e pelos mesmos motivos. Não deixe que ninguém diga que é bobagem ou que você está ficando louco. Acredite em si mesmo. Lembre-se sempre da frase da imagem que ilustra o post: Depressão é excesso de passado, ansiedade é excesso de futuro. Viva o presente!

Sei que o texto foi longo, mas espero ter conseguido dividir um pouco da minha experiência e ajudar algumas pessoas. :)


14 de fevereiro de 2015

O que Suits tem me ensinado

Eu estou numa fase da minha vida na qual penso muito no futuro, na vida profissional e pessoal, nos caminhos que tenho seguido e aonde quero que eles me levem. No meio disso tudo, comecei há cerca de um mês a assistir uma série nova: Suits (Tks, Jairo! ;-)). É sobre o dia-a-dia em um escritório de advocacia em Nova Iorque e a relação entre um associado que não entrou na empresa da maneira mais correta e seus colegas.

Independentemente de qualquer coisa, sugiro que assista. É excelente e vai prender sua atenção de uma forma impressionante.

Mas ela não é somente divertida e emocionante e tem atores e figurinos lindos (love u, Harvey). Além disso, ela também traz alguns questionamentos e pensamentos muito relevantes que acho válido trazer pra nossa vida. Cada um compreende as mensagens de acordo com a sua necessidade no momento, então aponto abaixo a minha compreensão da série até agora que terminei a terceira temporada (Netflix, suba a quarta de uma vez, pelo amor de Deeeeeeus!). Sim, alguns podem ser bem óbvios e eu mesma já sei deles há um tempo, mas às vezes é bom que eles sejam jogados na nossa cara novamente.

– Você pode ter muito dinheiro e, sim, isso vai te fazer feliz em vários setores da sua vida. Mas, se não tiver consciência de que só isso não basta, sempre haverá um vazio.

– Para alcançar um nível profissional no qual você tem liberdade de opinião, de horários e financeira, meu filho, rala! Nem sempre vai ser fácil e algumas coisas muito boas terão que esperar, mas hey, nobody said it was easy, right?!

– Sabe essa informação de cima? Se você for mulher, prepare-se para ralar bem mais. E, ainda assim, ter que ouvir uma vez ou outra que você só chegou nesse lugar porque tem peitos, usa roupa provocativa ou dormiu com alguém. É uma merda, mas ainda é uma realidade que estamos tentando mudar.

– Por melhor ser humano que você seja, ninguém faz tudo 100% certo 100% do tempo. Todo mundo faz cagada, consciente ou inconscientemente. Cabe a cada um saber lidar com isso, conhecer o seu limite e tentar consertar os erros sempre que possível. E quando não for possível, perdoe-se. Faz parte.

– Relacionamentos interpessoais são muito difíceis – MUITO! Em especial entre homens e mulheres. Não importa se profissional ou pessoalmente. E a única maneira de conviver bem com isso sem ser um imbecil ou morrer sozinho é manter o respeito, a honestidade, a confiança e a calma. Conversas são sempre – SEMPRE – a melhor opção antes da briga. Dê a chance da outra pessoa se explicar antes de jogar o copo na parede. Lembre-se da regra de cima: todo mundo faz cagada.

– A grama do vizinho é sempre mais verde. E sempre será! Isso acontece porque nós não sabemos as pragas que existem embaixo daquela grama ou quanto corante foi usado nela. Só conhecemos os nossos passos, os nossos erros e os nossos medos. Por mais inveja (sim, é essa a palavra e todo mundo sente em algum momento) que o trabalho ou a vida do outro nos dê, é preciso respirar e ter consciência de que você provavelmente não seria tão bom assim se estivesse no lugar dele. E ele não seria tão bom no que você faz também. Por mais legal que eu ache ver o Harvey acabando com os outros no tribunal, não é minha praia. Da mesma forma que ele provavelmente não escreveria ou traduziria tão bem quanto eu ;-). Pare de olhar pro lado, dedique-se ao que você é bom, ao que te faz bem e a paz interior volta pra você.

– Não importa se você trabalha no melhor escritório de Nova Iorque ou no café da esquina da sua casa, sempre haverá imbecis tentando te derrubar. Seja superior e lide com isso sem se rebaixar.

– E por fim, por melhor que você seja no seu trabalho ou por mais feliz que seja no seu relacionamento, não é possível vencer todas as vezes. Shit happens! Lembre-se dos momentos bons quando os ruins acontecerem e siga em frente.