Beatriz Franco, de São Vicente
“Aqui elas aprendem a importância de um guerreira, um artista marcial, ter cultura.” Baseado neste fundamento do caratê, o mestre Rogério Wong ensina crianças e adultos de São Vicente a “ocupar a cabeça com boas coisas”.
Há três anos e meio à frente das escolas de caratê da Prefeitura, mestre Wong, faixa-preta do 7º Dan, tem como objetivo trabalhar o lado social dos atletas, além dos desenvolvimentos físico, cognitivo e afetivo. “Tento fazer do caratê uma ferramente da educação, explicando como um praticante deve se comportar. A educação e o esporte andam juntos.”
Atualmente, somente em um dos locais das aulas, o projeto conta com cerca de 240 participantes com idade entre 5 e 63 anos e já começa a mostrar resultados. Dos 42 atletas que participaram da 3ª etapa do Campeonato Paulista, em Bertioga, no fim de abril, 34 se classificaram para disputar a final que acontece no dia 1º de junho,
Mestre Wong comemora essas conquistas, mas explica que é outro tipo de resultado que o deixa mais feliz. “Depois de um tempo, é possível perceber várias melhoras, como na higiene, na relação familiar, no rendimento escolar e na saúde. Acontecem mudanças na postura e até na circulação corporal.”
Dificuldades – Mas não é só de alegrias que o projeto vive. Também existem algumas necessidades. Apesar de ser patrocinado pela Prefeitura, os atletas precisam de uniformes para as competições e patrocínio para aqueles que competem individualmente. Coisas que o sensei não tem condições de disponibilizar.
Mas nem isso desanima os alunos e o professor. As aulas estão sempre lotadas e agora quatro atletas tornaram-se faixa-preta. “Tivemos esta felicidade e agora eles podem ajudar e aprender cada vez mais”, finaliza mestre Wong.
Disciplina é o caminho
Entre os alunos do professor Rogério Wong uma opinião é unânime: o principal aprendizado nas aulas é a disciplina. As maiores mudanças apontadas por eles e pelas mães são a responsabilidade, a melhora na escola e nos compromissos em casa.
Edna, a mãe de caio de Souza dos Santos (Moai Rapa Nui), de 11 anos, é enfática ao dizer que outras mães deveriam ir acompanhar uma aula do sensei para perceber a diferença. “É espiritual. As crianças adoram ele.” Caio treinava em uma escola particular que, segundo sua mãe, não tinha os mesmos ensinamentos, por isso mudaram para lá. Caio é um dos atletas que vão disputar a final do Paulista, em junho, assim como Letícia Gomes Colferai (Colégio Itá), de 12 anos, e Rafael Barbosa Cruz, de 8 anos.
Letícia diz que começou a praticar caratê por causa do filme Karate Kid, mas hoje percebe sua evolução. “minhas notas melhoraram muito e sou bem mais dedicada.” Já Rafael, de 8 anos, passa por uma dificuldade a mais para freqüentar as aulas. Ele mora na área continental de São Vicente e pratica caratê no Ginásio Robinho, no Centro. Mesmo assim, ele não falta a uma aula e diz que o principal aprendizado foi o respeito ao próximo. “O sensei ensina que somos todos iguais, mesmo vindo de lugares diferentes e fazendo coisas diferentes.”