10 de janeiro de 2010

Mergulho Seguro

Beatriz Franco, de Santos
Com esse calor, quem resiste a um mergulho refrescante? Hoje, com as piscinas cada vez mais comuns nas áreas de lazer dos condomínios privativos, fica mais fácil brincar com as crianças na água em qualquer hora do dia ou da noite. No entanto, por questões de segurança, a instalação de uma piscina no prédio ou em casa deve ser planejada com muito cuidado, principalmente quando o espaço será frequentado por crianças. 
No Brasil, o afogamento é a segunda causa de morte em crianças entre 1 e 14 anos, atrás apenas dos acidentes de carro. Por esse motivo, especialistas alertam que, antes de mais nada, qualquer piscina, seja em casa ou na área de lazer do condomínio, deve ser cercada por grade de 1,5 metro de altura e que não possa ser escalada. "É essencial que o portão de entrada dessa grade seja trancado com cadeado quando a piscina não estiver em uso. 
A instalação de alarme nessa entrada, que indique quando alguém a ultrapassou, também é uma medida de segurança, inclusive para animais", explica a pediatra Márcia Rodrigues, de Santos. Segundo a especialista, aquelas telas ou capas que cobrem a piscina podem ser usadas, mas nunca substituem a grade. O piso dessa área também não pode ser liso, deve ser anti-derrapante. 
Ela ainda aponta um dado alarmante. "Bastam apenas 10 centímetros de água, ou 200 ml, para encher o pulmão de uma criança. O equivalente a um copinho de plástico de água. Além disso, a cabeça delas é mais pesada do que o resto do corpo, então, qualquer inclinação que faça para frente pode ocasionar uma queda na piscina ou até mesmo em um balde com água". Outro alerta da médica é com relação aos produtos de limpeza da piscina. Assim como qualquer outra substância química utilizada em casa, eles não podem ser deixados ao alcance dos pequenos. 
O pediatra e médico responsável pela UTI Pediátrica da Santa Casa de Santos, Sérgio Luciano Pinto, afirma que depois dos cuidados práticos com a piscina, o mais importante de tudo é nunca descuidar das crianças. "Os pais se distraem e perdem a criança de vista. É justamente nessa hora que os acidentes acontecem". 
A pediatra Márcia Rodrigues confirma essa teoria e acrescenta: "O telefone e a campainha são os maiores motivos de acidentes. Se você está com uma criança na piscina, ou até mesmo na banheira, e o telefone ou a campainha toca, você tem duas opções: deixar tocar ou pegar a criança no colo e levar junto". 
Sérgio Luciano ainda ressalta que a criança não pode se alimentar por pelo menos duas horas antes de entrar na piscina. O ideal é que tome apenas líquidos. "Com a agitação das brincadeiras, pode vomitar e acabar se sufocando". Qualquer pessoa, criança ou adulto, que tome remédios, como anticonvulsivos, também não pode frequentar a piscina sem acompanhamento.

Boias 
Para Márcia, as crianças devem aprender a nadar a partir dos 2 anos e alerta: "Boias de braço e de barriga não servem como proteção. Elas podem furar, desinflar ou serem retiradas pela própria criança. O certo são os coletes salva-vidas, aqueles cor de laranja disponíveis em barcos". 
É importante também que os pais saibam nadar. "A pessoa responsável pelas crianças na piscina obrigatoriamente tem que saber nadar e, de preferência, ter conhecimento de primeiros socorros para casos de emergência", afirma Márcia. Sérgio ainda acrescenta que, mesmo as crianças que sabem nadar, precisam de acompanhamento constante. "Elas são autoconfiantes, acham que sabem tudo e os pais, mais seguros, acabam se distraindo". 
Brincadeiras violentas dentro da água, como os caldos, também são perigosas. Uma atitude simples, que pode afastar o perigo, é retirar os brinquedos de perto da piscina. Eles podem atrair as crianças para perto e causar acidentes. O pediatra Sérgio Luciano finaliza sintetizando: "A principal orientação é nunca deixar as crianças sozinhas. Mas, se por acaso você tem piscina em casa e o seu filho sumiu, lá deve ser o primeiro lugar a procurar. Não vá para nenhuma parte da casa antes de checar a piscina. Em caso de acidente, o pronto atendimento é o mais importante".


Depoimento - Cristina Carvalho de Freitas, mãe de Enzo de 4 anos "Na época, o Enzo tinha dois anos e meio. Nós estávamos em um aniversário na casa de um amigo e o meu filho estava sentado no deck ao lado da piscina junto com outras crianças e alguns adultos, dois inclusive dentro da água em frente a ele. Eram pessoas da minha inteira confiança. 
Eu fui ao banheiro que fica do outro lado da piscina e quando sai, vi o Enzo ainda sentado no deck. Mas alguém atrás de mim me chamou e eu virei. Foi uma questão de segundos até eu ouvir um grito e olhar novamente. Ele já estava dentro d’água e ninguém fazia nada. Meu filho sofreu uma parada cardiorrespiratória. 
Eu senti o chão cair, uma sensação de impotência, desespero. Eu não tinha carro e ninguém que estava na festa se ofereceu para ajudar. Então peguei meu filho no colo e saí me jogando na frente d os carros na rua até alguém parar. Fui até um posto de saúde ali perto, mas o local era completamente despreparado e a única coisa que fizeram foi chamar uma ambulância da Prefeitura para levar a gente para a Santa Casa. 
Somente lá ele foi reanimado. Do momento da parada até a reanimação foram cerca de 30 minutos. Hoje, o Enzo tem 4 anos e está em casa em estado semi-comatoso. Ele não fala, não anda e se alimenta por sonda. Tem atendimento 24 horas, tratamento com fisioterapeuta, fonoaudióloga, tem estímulos o dia todo. 
Durante os sete meses que ele ficou na UTI, eu aprendi tudo sobre enfermagem. Eu sei fazer qualquer coisa para cuidar dele. Eu sei que ele vai se recuperar, eu acredito nisso. Nunca tive dúvidas de que meu filho conseguiria. Tive medo, mas nunca duvidei. 
O que eu recomendo aos pais que têm piscina em casa ou que deixam os filhos frequentarem piscinas de outros lugares é muito cuidado. Nós sempre tivemos piscina e nunca aconteceu nada com ninguém. Nós cuidamos tanto dos filhos dos outros e foi com o nosso que isso aconteceu. Se eu soubesse o que eu sei hoje, não teria saído do lado do Enzo nem um minuto. Se não quiser ter esses cuidados não tenha piscina ou não deixe as crianças perto dela. 
De tudo você aprende uma lição. Eu aprendi a ser forte e a não confiar em mais ninguém."