21 de fevereiro de 2010

À Distância


Beatriz Franco, de Santos 

Na melhor fase do namoro, ele precisa mudar de cidade para cursar uma faculdade. Depois de anos de convivência e casamento, ela é transferida de estado pela empresa. Em um momento em que a mudança não pode ser evitada, mas o término da relação não é uma opção, surgem os relacionamentos à distância. 
Saudade, problemas e desconfianças são algumas das dificuldades. No meio de tantas dúvidas, especialistas e casais tentam responder: será que esse tipo de relação tem futuro?  
Entre os principais motivos dessa distância estão o investimento na carreira e nos estudos. Para o psicólogo clínico Flávio Mesquita, da Clínica Abordagem Cognitivo Comportamental, de Santos, esse é um dos fatores mais significativos para o aumento dos relacionamentos à distância. “Antes era mais comum que a mulher acompanhasse o marido caso ele fosse transferido, por exemplo. Mas, hoje em dia, muito provavelmente, a mulher estará ocupando um cargo tão relevante quanto o do marido e é difícil imaginar que ela abdicaria facilmente.”  
Outro fator muito importante é a acessibilidade aos meios de comunicação cada vez mais modernos. Para o psicólogo, a internet é um facilitador do contato virtual entre as pessoas que moram longe. “Supre a necessidade de contato entre pares já estabelecidos e que, por algum motivo, se afastaram.”  
A psicoterapeuta Margarete Volpi, do Instituto Volpi e Pasini de Psicologia Sistêmica, em São Paulo, afirma que este tipo de relacionamento, assim como o namoro virtual, teve uma evolução considerável nos últimos dez anos. “No caso de pessoas casadas, separadas pelo trabalho, a comunicação virtual contribui para que não haja ausência na família”, explica a especialista em terapia familiar e de casal.  
No entanto, apesar do aumento dessa modalidade de relacionamento, as dificuldades são muitas, fazendo com que boa parte das relações não tenha um final feliz. Para Margarete, os resultados negativos normalmente acontecem por conta da mudança dos hábitos. E, nesse sentido, a distância vem mais para separar do que para unir o casal.  
Flávio Mesquita corrobora a informação e afirma que a falta física do parceiro, especialmente em momentos de celebração ou divisão de tarefas e ônus, também colabora para o fim dessas relações. “É claro que o que dará o tom desta relevância é o tempo pelo qual este casal ficará distanciado. Se for um acordo por tempo determinado e no qual possam ser claros os benefícios no futuro, fica mais fácil apaziguar a distância”, exemplifica.  
Um motivo também recorrente no término das relações à distância é o ciúme. A falta de controle e acompanhamento do parceiro gera muitas dúvidas. Como não existe algo concreto, a presença, a confiança e a autoestima tendem a diminuir. “Se no dia a dia já existem dificuldades de confiança, pela internet é ainda mais difícil. Você sabe o que o outro fala, não o que você vê”, exclarece Margarete. O psicólogo Flávio Mesquita aponta insegurança, sentimento de isolamento, excesso de responsabilidades e a questão da sexualidade como outros fatores que contribuem para os finais infelizes.  

Falta da presença  
A atriz Hellen Bravo Borges, de 24 anos, é um exemplo de persistência e crença nos relacionamentos à distância, apesar do término da sua experiência. Durante três anos e meio, ela se relacionou com o ex-namorado em santos, até que ele precisou ir para Nova Jersey, nos Estados Unidos, para ajudar a cuidar da saúde da família. 
Apesar de saberem que não seria fácil, resolveram manter a relação por acharem que valia a pena. No início só se comunicavam por telefone a cada duas semanas, pois Hellen não tinha computador. Apenas depois de seis meses, ela comprou o equipamento e passaram a se falar todas as noites.  
Para a atriz, a maior dificuldade é a falta da presença. “O problema é você não estar junto, não tem o toque, o calor, você não compartilha nada.” Mas afirma que só deu certo por tanto tempo porque havia muita confiança das duas partes.  
Essa relação durou sete anos – até que resolveram terminar por não verem perspectiva de reencontro. “A distância desgastou demais, eu tentei ir para lá, mas não consegui visto, e ele, financeiramente, não tinha condições.”  

Via internet  
Um exemplo de que a internet realmente tem colaborado para o encontro dos casais é a história de Karla Garcia Luiz. Ela mora em Garopaba, Santa Catarina, e conheceu, pela internet, um rapaz de Santos. Depois de se verem pessoalmente, namoraram por um ano. Durante esse tempo viam-se apenas a cada duas ou três semanas. Devido às dificuldades da distância, casaram-se após dois anos e meio e vieram morar na Baixada Santista. No entanto, mesmo com a proximidade, a relação não deu certo.  
Apesar dos problemas e dos relacionamentos não terem vingado, Hellen e Karla não se arrependem de nada. As duas acreditam que a relação foi importante enquanto durou e trouxe muito aprendizado. Para o psicólogo Flávio Mesquita, independentemente de ser um namoro ou um casamento, o importante para que essa relação dure é a consistência. As duas partes precisam estar seguras de que o relacionamento tem futuro e que confiam um no outro, mesmo longe.  
Karla Garcia confirma e acrescenta: “Tenha em mente qual é o objetivo com aquela pessoa. Se não houver o desejo de estar junto de verdade um dia, é melhor cada um seguir seu caminho”.  

Família reunida 
E é justamente o desejo de estar junto e construir uma sólida história de vida em comum que mantém unidos a nutricionista vicentina Sarana Cruz, de 30 anos, e o eletricista naval carioca Cleber Milton Gomes de Oliveira, de 34. Mesmo ele trabalhando longe de casa metade do ano!  
Entre idas e vindas, eles se relacionam há nove anos. Mas precisou chegar a filha do casal, Mariah, de 1 anos e 7 meses, para que os dois, finalmente, resolvessem se casar. “Ele morava no Rio quando veio à Baixada a trabalho em 2001. Na época, era fuzileiro naval. Conheceu uma amiga e eles trocaram telefones. Eu conversava com ele direto, sem nunca tê-lo visto, quando veio passar um final de semana aqui. A partir daí, ficamos um ano juntos, por meio de muito telefonema.”  
Sarana conta que, então, perderam o contato e ele foi morar na França, onde ficou nove meses. Nesse meio tempo, a nutricionista chegou a namorar outro homem, com quem ficou dois anos e meio. “Quando desmanchei, resolvi criar um perfil no Orkut. Como meu nome é diferente, o Cleber me achou facilmente. Bastou para nos reencontrarmos. Eu ia para o Rio e ele vinha para cá.”  
Em dezembro de 2007, cada um foi para o seu lado. Cleber, inclusive, embarcou para China no início de 2008, onde ficou cinco meses. Quando voltou, nem imaginava que Sarana havia engravidado. Em julho, nasceu Mariah, que foi com a mãe para o Rio de Janeiro conhecer o pai. Hoje, eles têm uma casa em São Vicente, onde mãe e filha esperam que ele volte, já que fica um mês em casa e outro fora, trabalhando.  
O segredo para a família ficar unida nesse esquema? “Confiança. Agora, por exemplo, ele está em Recife, onde passou o Carnaval. Sei que ele sente a nossa falta, assim como sempre sinto a dele. Aliás, sinto a mesma saudade quando ele está longe e quando está em casa e eu trabalhando, louca para reencontrá-lo.”