Beatriz Franco, de Santos
Para que bonecas, bichos de pelúcia e casas de brinquedo se você pode ter uma bola de futebol? Assim pensa Rayla Pelegrini de Oliveira, 8 anos, que passa mais tempo com a gorduchinha nos pés do que brincando de casinha. “Desde que ela pegou em uma bola pela primeira vez, não quis mais largar”, conta, orgulhoso, o pai Ademir.
A paixão é tanta que Rayla joga no time dos garotos. “A gente não encontrava uma escola de futsal feminina. Aí, pedimos várias vezes ao Santos. Ela vinha aqui todos os dias, até que deixaram ela treinar junto com os meninos”, explica sua mãe, Elaine.
E pensa que a jovem atleta se incomoda? “É melhor jogar com eles, porque eles tocam mais e dá pra fazer muito gol”. Além do futsal no Santos, Rayla também treina no Colégio Adventista, onde estuda, e na escolinha das Sereias da Vila de futebol de campo. O problema é que no campo, ela joga com meninas bem mais velhas, a partir de 13 anos, e ali não tem moleza. “Elas não tocam, depois dão rasteira, empurram.”
Para tentar resolver o problema de não receber a bola, Rayla resolveu tentar ser goleira nos treinos da Escola Defender, que acontece em seu colégio. “Dá pra pegar mais na bola, ter mais contato.” Isso, no entanto, não agrada muito a seu pai, que acredita que ela deva continuar no ataque. “Eu acho que não é tão bom, porque o estilo dela é mais de ataque e defesa. Ela corre muito.”
No gol ou no ataque, no salão ou no campo, Rayla só tem uma certeza: “Quero ser jogadora de futebol”.
Campeã mundial de basquete serve de exemplo
Rayla tem em quem se inspirar para continuar treinando firme. Magic Paula, campeã mundial de basquete em 1994 e medalha de prata nas Olimpíadas de Atlanta, passou por uma situação parecida.
Segundo ela, fazia parte dos treinos da Seleção para as competições jogar contra times masculinos juvenis ou infanto-juvenis e isso ajudava muito na preparação das atletas. “Era muito importante porque os garotos são mais rápidos, mais ágeis, mais fortes. Então você é obrigado a ir além do seu limite.”
Paula explica que é diferente a sensação de jogar contra garotos e tê-los na mesma equipe, mas acredita que a oportunidade é sempre válida. “Os meninos vão querer ganhar sempre. Eles odiavam perder pra gente, perder pra mulher. Mas isso é bom pra tirar proveito da situação, aprender com as dificuldades.”
Sobre Rayla, a campeã fica muito feliz que ela tenha encontrado seu espaço. “Se os garotos a aceitaram na equipe, já é um primeiro passo.”
Dificuldades para a equipe feminina
Um dos treinadores da escola de futsal do Santos, Marcos Amaral, elogia a idéia de ter meninas treinando e acredita que elas precisam ter espaço em qualquer escolinha. “Precisam ter oportunidade. Devíamos ter mais meninas ainda.”
Sobre Rayla, Amaral diz que ela se entende muito bem com os garotos e que a força de vontade dela ajuda na evolução. “A cada dia que passa, a cada treino, ela vai melhorando mais.”
O coordenador do Departamento de Futsal do Santos, José Alexandre Fiuza de Melo Cardoso, o Barata, explica que a idéia de se formar um time só feminino existe há algum tempo. Inclusive já abriram inscrições uma vez, mas vários problemas atrasaram a iniciativa. Entre eles, estão a falta de horário e o fato e receberam inscrições de meninas de idades diferentes. “Não dá pra montar equipes por idade e se colocarmos todas juntas pode causar algum acidente.” Já com as que jogam no time masculino, ele afirma não haver esse risco, pois na maioria dos casos elas jogam com garotos mais novos, para equilibrar a força e a velocidade.
Segundo Barata, a iniciativa de formar um time feminino de futsal deve voltar à pauta a partir de março do ano que vem.