Beatriz Franco, de Santos
Há 50 anos, um simples comprimido revolucionou a vida das mulheres para sempre. Liberdade sexual, planejamento familiar e uma carreira mais longa foram alguns dos benefícios trazidos pela pílula anticoncepcional.
Este ano, um dos métodos contraceptivos mais usados completa meio século de existência. Mas o que mudou desde essa invenção?
A revolução mais significativa foi com relação à taxa de fecundidade da mulher brasileira. Em 1960, ano da invenção da pílula, a média nacional era de 6,3 filhos por mulher. Em 1970, esse número baixou para 5,8, e chegou a 2,3 filhos em 2000.
A criação da pílula anticoncepcional possibilitou às mulheres uma maior autonomia da própria vida. Agora, elas poderiam prolongar o período de estudo e da carreira e escolher o momento certo para engravidar. Além disso, muda o conceito de sexo apenas para reprodução. Elas podem aproveitar do prazer sexual sem os riscos da gestação.
Além dos benefícios comportamentais, a pílula traz vantagens também com relação à saúde e ao conforto feminino.
O ginecologista e obstetra, César Eduardo Fernandes, presidente da Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo, explica que entre os benefícios do comprimido estão a redução do fluxo menstrual, diminuição de cólicas e melhoria da tensão pré-menstrual e da pele. “Antes, as mulheres só queriam algo que evitasse a gravidez. Hoje, elas querem que aquele remédio agregue outras vantagens”.
Para ele, atualmente, a pílula anticoncepcional é o método mais aceito por ser reversível facilmente e mais barato. “Depois de 50 anos, ela é respeitada. As pacientes aceitam melhor e já conhecem tudo sobre o comprimido”.
Esse método é indicado para quase todas as mulheres. Apenas para quem tem doenças metabólicas, como diabetes e problemas renais, ou histórico de câncer de mama ou trombose, elas são contraindicadas.
Não há risco de câncer, mas pode engordar
Ainda hoje alguns mitos e dúvidas povoam a cabeça das mulheres que pretendem começar a usar a pílula anticoncepcional.
O ginecologista César Eduardo Fernandes conta que em seu consultório as principais dúvidas são sobre dificuldade de engravidar, riscos de câncer e ganho de peso.
As duas primeiras são negadas veementemente. Depois que a mulher para de tomar o remédio, a função ovulatória retorna em um mês, possibilitando a gravidez normalmente. Com relação aos riscos de câncer, Fernandes também é taxativo: isso não acontece. “Na realidade, a incidência de câncer de ovário e de útero diminui em mulheres usuárias da pílula”.
Já quando trata-se do ganho de peso, o médico explica que isso pode acontecer, mas nos primeiros meses de uso e apenas em algumas mulheres. “A resposta ao remédio é muito individual. O que acontece em uma pode não acontecer com outra”.
De acordo com ele, os efeitos passam após alguns meses. Caso contrário, cabe ao médico indicar uma outra formulação ou método contraceptivo.
Outro mito desmentido pelo ginecologista diz respeito à ligação entre o uso da pílula e a menopausa. “A idade da menopausa e a intensidade dos sintomas não são alteradas pelo anticoncepcional”.
A necessidade de “descanso” da pílula, detectada no passado para evitar o risco de infertilidade com o uso constante, não existe mais. Como a quantidade de hormônios dos comprimidos hoje é bem menor, não há mais esse perigo.
Nos anos 60 era só para mulheres casadas
A primeira pílula anticoncepcional foi criada em 1960, nos Estados Unidos, com o nome de Enavid. Devido a um cenário que pregava uma conduta moral de castidade feminina, o remédio só era receitado a mulheres casadas e com autorização dos maridos.
No entanto, essa primeira geração de pílulas, apesar de eficaz, não era muito segura. Com uma grande quantidade de hormônios sintéticos, gerava efeitos colaterais graves, como trombose, tromboembolismo e atrapalhava a coagulação sanguínea.
A partir dos anos 70, as gerações seguintes do remédio já traziam uma menor quantidade de hormônios e, consequentemente, menos efeitos.
Enquanto a primeira pílula continha 150 microgramas (mcg) de estrogênio, um dos hormônios necessários, as atuais, contêm comprimidos com 30, 20 e até 15 mcg.
Tem que ser tomada todo dia na mesma hora
A pílula anticoncepcional funciona como um inibidor da ovulação feminina. Dentro do ovário existem vários folículos, como se fossem caixinhas, que abrigam os óvulos. Uma glândula chamada hipófise, que fica na base do cérebro, libera uma substância que faz com que os folículos amadureçam e liberem os óvulos.
Assim acontece o período de ovulação. Quando há uma relação sexual nesse período, mulher engravida.
A pílula faz com que a produção dessa substância pela hipófise não seja realizada, logo não acontece o amadurecimento dos folículos e, por consequência, não há ovulação. Dessa forma, a mulher não tem como engravidar.
No entanto, tudo isso só acontece com o uso regular do medicamento. Os comprimidos devem ser tomados diariamente e no mesmo horário.